Estética - Belo e Feio

Nada é mais condicionado, digamos limitado, do que nosso sentimento do belo. Quem quiser pensar sobre ele separado do ser humano com o ser humano logo verá o chão ceder sob os pés. O "belo em si"é uma mera expressão, não é sequer um conceito. No belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição, em casos seletos, adora nele a si mesmo. Uma espécie não pode senão dizer sim a si mesma desse modo. Seu instinto mais profundo, o da autopreservação e auto-expansão, ainda se manifesta em tais sublimidades. O ser humano acredita que o mundo está repleto de beleza - ele esquece de si mesmo como causa dela. Somente ele dotou o mundo de beleza, oh, de uma beleza muito humana, demasiado humana... No fundo, o ser humano se espelha nas coisas, acha belo tudo o que lhe devolve a sua imagem: o juízo "belo"é sua vaidade de espécie... Pois o cético pode ouvir uma leve suspeita lhe sussurrar esta pergunta: o mundo realmente se tornou belo pelo fato de o ser humano tomá-lo por belo? Ele o humanizou: isso é tudo. Mas nada absolutamente nada nos garante que justamente o ser humano constitua o modelo do belo. Quem sabe como ele se saíria aos olhos de um mais elevado juiz do gosto? Talvez ousado? Talvez até divertido? Talvez um pouco arbitrário?... (Friedrich Nietzsche - IX, 19, Crepúsculo dos Ídolos)

 

Estética comportamental - Van gogh: belo e feio

Ontem um amigo (que jura entender de Arte) me mostrou essa imagem e perguntou o que eu achava:

Eu não acho isso bonito!

E eu disse: "Nossa, que cafona!"

Ele: "Como ousas, mortal? Isso é Van Gogh!!!"

Eu: "Sim, sei. Mas acho esquisito e de mau gosto esse negócio de girassóis num fundo azul-esverdeado. Aliás, acho as 'naturezas mortas' dele todas ruins. Adoro, contudo, quando ele pintava o interior de lugares".


Ah, Van Gogh, agora sim !

Ele prosseguiu dizendo que eu deveria "educar meus sentidos", pois Van Gogh era belíssimo em si mesmo, e se eu não conseguia enxergar a beleza ali, era porque algo estava errado comigo.

Expliquei pra ele que para Kant, o juizo estético (a forma de julgarmos se algo é belo ou não), pressupõe uma avaliação subjetiva, pois não existe um belo universal, i.e., que é belo a todos. O que existe, para Kant, é um sentimento universal do Belo, que todos podem alcançar, mas contemplando coisas distintas. Esse sentimento tem a ver com um prazer transcendente, mas pode ser alcançado por mim vendo um quadro de Van Gogh, mas não vendo um outro.


Para Kant, o Belo Universal não existe, mas existe um sentimento universal sobre coisas belas.

Kant, mais uma vez soou bem comportamental. É correto dizer que gostar de um quadro é uma forma de se comportar em relação a ele. Se gostamos de um Van Gogh, é porque achamos aquele estímulo reforçador de alguma forma, e se não gostamos, é possível que ele nos seja neutro ou mesmo aversivo.

Quando observo um quadro de Van Gogh num museu, alguém pode me perguntar: "O que você acha dessa obra?"


Menos mau, Van Gogh. Mas ainda. hhmmmm.. Ah, sei lá... girassol no vaso não me apetece, cara! Foi mal, ok?

Posso explicar, racionalmente, que considerei a harmonia de cores muito competente, e que a sensação de profundidade é hipnotizante, e que ele parece vivo e dinâmico por causa dos efeitos de luz. Mas depois de toda essa análise racionalista favorável, posso concluir: "Não gostei". (E de fato, acho horrível esse quadro aí em cima).

Se você vai achar algo belo é porque seu histórico de vida, seu estado momentâneo e outras relações contextuais determinam que esse algo é reforçador para você. Falando de forma kantiana, que esse algo vai te "transportar ao sentimento universal do Belo" (que é um estado resultante de um reforçamento eficaz do ato de contemplar a obra).


Este é o quadro mais belo do Van Gogh (pra mim). E se você não concorda comigo, não quer dizer que você está errado...

Ou seja, são tantas variáveis se relacionando para explicar o gostar de algo que tendemos a dizer: "Gosto não se discute", por ser um comportamento complexo, muito dependente de variáveis muito dinâmicas para um indivíduo em específico.

Pensar a partir do Behaviorismo Radical é, dentre outras coisas, reconhecer a subjetividade de cada um, pois cada pessoa tem um histórico, um contexto atual e um organismo que são únicos.

Por isso o Alessandro pode achar "feio" um quadro do Van Gogh com girassóis num fundo azul e você pode achá-lo lindo, e os dois estarem certos, ao mesmo tempo. Pois o meu "achar feio" é controlado por outros estímulos bem diferentes dos que controlam o seu "achar belo".

Importa entendermos como chegamos à "sensação do Belo", e não perder tempo discutindo o que é "Belo em si".

© 2011 Todos os direitos reservados.

Crie o seu site grátisWebnode